Hábitos: quantos dias leva para virar automático?
Com a evolução dos aparelhos de tomografia computadorizada, a humanidade começou a entender cada vez melhor alguns mecanismos importantes do cérebro.
Uma das descobertas mais fascinantes, sem dúvida, foi saber como os nossos hábitos se formam e qual é a utilidade deles para a nossa sobrevivência.
Depois de compreender questões importantes relativas à formação dos hábitos, os cientistas se depararam com uma outra pergunta um tanto intrigante:
“Quanto tempo é necessário para um hábito se formar?”
Vamos entender então alguns dos estudos mais conhecidos a respeito deste assunto.
Farei também farei uma reflexão do que tenho observado na prática depois de estudar e testar no dia a dia a criação dos meus hábitos por vários anos.
- O mito dos 21 dias
- O estudo dos 66 dias
- A melhor forma de saber se virou hábito.
O mito dos 21 dias
Se você perguntar para alguém próximo quanto tempo leva para formar um hábito, muitos responderão na hora “21 dias”.
Esse número nasceu do livro Psycho-Cybernetics ( na edição em português tem o nome de “Libere sua Personalidade”) publicado em 1960 pelo Dr. Maxwell Maltz.
O renomado Dr. Maxwell Maltz, especialista em amputações, observou um padrão de comportamento muito comum em seus pacientes. Eles levavam em torno de 21 dias para se acostumarem com as reconstruções faciais e com as amputações. Antes deste período, os pacientes amputados se comportavam como se tivessem um órgão fantasma.
O interessante é que Maltz não fez a afirmação que todo hábito precisa de 21 dias para se estabelecer. Ele apenas mencionou esse número como uma métrica que se repetia em seus pacientes.
Ele escreveu: “Estes e muitos outros fenômenos comumente observados tendem a mostrar que requer um mínimo de cerca de 21 dias para que uma imagem mental antiga se dissolva e uma nova se solidifique”.
Mas à medida que o livro se tornou mais popular (mais de 30 milhões de cópias vendidas), essa observação situacional tornou-se aceita como uma verdade absoluta.
Em 1993, o neurocientista especialista em memorização Larry Squire constatou que Eugine Pauly (um americano que teve parte do cérebro danificado devido a uma infecção bacteriana) levou exatos 28 dias para incorporar um hábito em um experimento de memorização relatado no livro O Poder do Hábito.
Portanto, já começamos a ver que não existe um número que seja uma unanimidade.
O Estudo dos 66 dias
Já a pesquisa conduzida em 2009 pela professora Jane Wardle da University College London e pela Dra. Phillippa Lally teve o propósito de investigar quanto tempo demorava para a repetição de um comportamento atingir um estágio de ‘automação’. Em outras palavras, fazer sem pensar.
Os voluntários que participaram do estudo foram convidados a escolher uma alimentação saudável, beber água ou praticar exercícios físicos que gostariam de tornar um hábito.
Os hábitos a serem desenvolvidos eram específicos como comer uma fruta no almoço, beber um copo de água ao acordar ou correr 15 minutos antes do jantar. Os participantes foram convidados a tentar realizar o comportamento escolhido por todos os dias.
“O que descobrimos foi que leva 66 dias em média para as pessoas em nosso estudo adquirirem o hábito”, relatou a professora Jane Wardle.
Isso quer dizer que se você tomar a decisão no final do ano de fazer exercícios ou se alimentar de maneira saudável e praticar diariamente, com consistência, até o início de março, é muito provável que continue e incorpore o hábito em sua vida..
A cada dia, os voluntários do estudo, também concluíam um teste criado para medir características de hábitos que são centrais para a automaticidade, incluindo falta de consciência e falta de controle.
Os resultados mostraram que enquanto o tempo médio para formar um hábito saudável de comer ou beber foi de 66 dias, comportamentos mais complexos como exercícios físicos demoraram mais para se formar .
A conclusão final foi que os hábitos podem levar de 18 a 254 dias para se formarem, e isso depende de fatores como a dificuldade de um hábito, a força de vontade da pessoa e também o sistema que ela utiliza para se manter ativa.
A melhor forma de saber se virou hábito.
Como se vê, não existe um número mágico.
Em outubro de 2020, no mês que estou publicando este post, completa 1 ano que só tomo banho frio.
Relatei mais detalhes desta experiência em um post no Instagram do @enfimdisciplinado.
Morando em São Paulo, cujo inverno muitas vezes pode ser tão rigoroso quanto ao das regiões do Sul do Brasil, e também acostumado a uma vida de banho quentinho, posso dizer que não foram nem 21 nem 66 dias que levei para que o banho gelado se tornasse normal pra mim.
Foram mais de 360 banhos onde diariamente eu encarava (e ainda encaro) o impacto da água fria ou gelada.
E a pergunta é: este hábito se tornou automático?
A resposta é: ainda não.
Em setembro (um pouco antes de completar um ano), me peguei debaixo da água gelada num dia relativamente frio onde entrei sem o habitual “desconforto térmico”. Quando estava me ensaboando é que me dei conta. Se eu fosse escolher um número, provavelmente o dia que isso aconteceu seria 353 🙂
Claro que é muito mais fácil entrar na água fria atualmente do que foi no início, mas ainda não é um ato automático. E possivelmente a cada dia meu cérebro fica mais próximo de desenvolver esse hábito, uma vez que não tenho a intenção de parar.
Conclusão: mais importante do que números é a sua auto observação.
A minha recomendação é identificar se um comportamento virou hábito identificando os sinais que estão descritos no excelente livro: Mini Hábitos: pequenos hábitos – grandes resultados, de Stephen Guise, São eles os 5 abaixo :
- 1. Sem resistência. Parece mais fácil fazer o comportamento do que não fazê-lo. Você passa a se identificar com o comportamento e se sentirá completamente confiante em dizer: “Eu leio livros” ou “Eu sou um escritor”.
- 2. Ação sem pensar. Você se envolverá no comportamento sem tomar uma decisão consciente. Você não vai pensar, Ok, eu decidi ir para a academia. Você só vai juntar suas coisas e ir porque é terça-feira ou porque que está na hora.
- 3.Você não se preocupe com isso. No início, você pode se preocupar em perder um dia ou desistir mais cedo, mas quando um comportamento é um hábito, você sabe que o fará, a menos que haja uma emergência.
- 4. Padronização. Os hábitos não são emocionais. Você não vai ficar animado porque “você está realmente fazendo isso!” uma vez que é um hábito. Quando um comportamento faz a transição para a padronização, é um hábito.
- 5 É tedioso. Bons hábitos não são excitantes; eles são apenas bons para você. Você ficará mais animado com a vida por causa de seus hábitos, mas não espere isso com o comportamento em si.
Para encerrar, não fique apenas na leitura. Pratique! Escolha um hábito que irá ajudá-lo a conquistar o seu objetivo, comece com uma meta pequena e foque na consistência!
Este conteúdo foi útil para você? Seu comentário é sempre muito bem vindo e será respondido.
Nos vemos no próximo post.
Forte abraço!
